
No final do ano passado, quando a crise financeira nos EUA atingia os seus primeiros picos de desgraça, os fundos soberanos entraram em cena oferecendo nada menos que US$ 40 bilhões para alguns dos mais fragilizados bancos americanos e europeus. A pergunta agora é: quando entrarão de novo O governo Bush fez que não viu. Afinal, os fundos soberanos são braços financeiros da ação de governos, especialmente no Oriente Médio e Ásia. Mas não foi suficiente, pois instituições como a Goldman Sachs antecipam um rombo de pelo menos mais US$ 200 bilhões no sistema financeiro. Os fundos soberanos podem ser pouco para dar conta do recado, alerta Nouriel Roubini, do RGE Monitor, um dos primeiros a soar o alarme sobre o desastre iminente no sistema econômico mais forte do planeta. Os fundos soberanos, que o ministro Guido Mantega gostaria de imitar, até agora sem sucesso, controlam mais de US$ 3 trilhões. É verdade que, indiretamente, os governos das economias em desenvolvimento já respondem por uma parte relevante da sustentação do poderio norte-americano. Para evitar uma valorização excessiva de suas moedas frente ao dólar, muitos governos investem suas reservas em títulos do Tesouro dos EUA. O resultado é que o resto do mundo financia a farra consumista norte-americana. Resta saber se os fundos soberanos continuarão a jogar água na fervura da crise financeira nos EUA. Na primeira rodada de recapitalização de instituições alquebradas, os fundos soberanos adquiriram participações inferiores a 10% em gigantes financeiros como UBS e Citigroup. Compraram papéis sem direito a voto. Desde essas aquisições, alerta Roubini, as perdas chegaram a 50% em alguns casos e novos investimentos viriam apenas com maior controle sobre as instituições socorridas. Roubini aliás nota que o governo Bush tem resistido às intenções de bancos estatais chineses interessados em ocupar espaço no mercado norte-americano, embora as pressões pela abertura do mercado chinês sejam incessantes e crescentes. O protecionismo acontece no sistema financeiro e não apenas nas relações de comércio entre os países. De outro lado, simplesmente não há, no planeta, lugar mais interessante e seguro para investir. Os EUA ainda são a Meca do investidor global. Centenas de bancos locais e regionais devem quebrar nos próximos meses nos EUA, alerta Roubini, citando estudos mais recentes que apontam para 8% do sistema em estado de podridão, o equivalente a 700 instituições prestes a quebrar – 90 já estão na lista do FDIC, a agência de garantia de depósitos dos correntistas nos EUA. Roubini analisa o cenário a partir de uma “economia política do protecionismo financeiro”. Dadas as perdas já ocorridas após a primeira rodada de capitalização e os limites políticos a uma participação maior de fundos soberanos no resgate de instituições americanas, sobra apenas uma solução – mais governo, mais dinheiro público, nacionalização das instituições financeiras americanas pelo próprio governo, ou seja, com dinheiro de impostos. Na prática, é o que já estão fazendo o Tesouro e o banco central dos EUA, justamente duas das instituições que mais ardorosamente defenderam nos últimos anos as maravilhas do livre-mercado e da racionalidade dos agentes financeiros totalmente livres e desregulados. Ironicamente, a tarefa de nacionalização do sistema financeiro do maior centro capitalista do mundo ficou nas mãos dos “camaradas” Paulson, Bernanke e do “Grande Líder Blochevique Bush”. Leia-se: privatizar os lucros, socializar os prejuízos, o “socialismo de Wall Street”, dos ricos e bem conectados. A um custo fiscal estimado em US$ 1 trilhão. A ideologia fundamentalista do livre-mercado levou os grandes impérios do passado (leia-se Inglaterra) a se tornar colônias dos novos poderes emergentes. A China, Cingapura e os fundos soberanos podem esperar para ver a crise piorar para então entrar, e comprar.

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