Após ficar quinze anos longe das telonas, Jane Fonda parece ter perdido a capacidade de escolher projetos interessantes. Se a participação em A Sogra não significou o retorno triunfal da atriz ao Cinema, Ela é a Poderosa marca de vez o fiasco deste que é apenas o segundo filme estrelado por Fonda no século vinte e um.
Dirigido por Garry Marshall (Diário da Princesa 1 e 2) e roteirizado por Mark Andrus (Melhor é Impossível), Ela é a Poderosa aborda, sem sucesso, a temática do conflito de gerações entre três mulheres da mesma família. A vida pacata da metódica Georgia (Fonda) é abalada pela chegada de sua neta Rachel Wilcox (Lohan), uma implicante patricinha da Califórnia que após constantes desentendimentos com a mãe, Lilly (Huffman), e o padrasto, é enviada para o Estado interiorano de Idaho com o intuito de passar uma temporada na casa da avó. Ao chegar à cidade, Rachel desperta a ira das recatadas donzelas do local, sobretudo pelos trajes indecentes e pela amizade colorida com o caubói Harlan (Hedlund).
Já nos primeiros instantes da projeção, fica evidente o desastre narrativo do roteiro de Andrus, que ultrapassa o limite da imbecilidade ao utilizar argumentos extremamente equivocados na condução da história. Incapaz de construir um enredo minimamente interessante, o texto de Mark acaba se tornando demasiadamente explicativo e superficial; as ações não se explicam por si mesmas, já que cada movimento dos atores é no instante seguinte justificado. O resultado é uma narrativa longa, incoerente e enfadonha.
Outro engano do roteirista é a tentativa esdrúxula de conceber Rachel como uma personagem que foge do estereótipo garota-rica-e-alienada. Mark se esforça intensamente para nos convencer de que apesar do inegável egocentrismo e aparente superficialidade de Wilcox, a patricinha também se interessa por literatura e música clássica: ela recita versos de Ezra Pound, identifica uma sinfonia de Bach e o clássico poema “The Raven”, de Edgar Allan Poe. E o que dizer, então, da surpresa de Rachel ao montar um quebra-cabeça sem saber do que se tratava a imagem? A falácia desses artifícios é revelada ao percebermos que o próprio Andrus se esquece de que uma garota culta e inteligente teria o mínimo de consciência ambiental e seria incapaz de descartar uma latinha de refrigerante e um celular bloqueado na estrada.
Infelizmente, os deslizes não param por aí. Confesso que estive prestes a abandonar a sessão ao ver a seqüência em que Rachel prepara um delicioso jantar (!) na casa do Dr. Simon Ward, um veterinário que, acreditemos ou não, atende pacientes humanos entre um animal e outro. Logo que chegara à casa de Georgia, a garota fora obrigada a lavar a própria louça do café da manhã, mesmo depois de ressaltar que nunca lavara um prato sequer na vida. É muito estranho, portanto, que o desinteresse de Rachel pela cozinha não a tenha afastado da culinária. Como pretexto, Andrus tenta justificar essa incoerência com o argumento de que Wilcox era forçada a cozinhar nos momentos em que a mãe estava embriagada.
Como não bastasse, Marshall também erra feio na direção do filme, principalmente pela incapacidade de impor um ritmo coerente à obra. É constrangedor, por exemplo, notar o desconforto dos figurantes diante das câmeras; ao perceber o embaraço destas pessoas, tive a nítida impressão de que grande parcela do elenco coadjuvante era composta de cidadãos comuns de Idaho. Tal como o roteirista, o diretor não economiza nos equívocos; ao contrário, eles estão presentes na narrativa do início ao fim, já que nem mesmo Garry é capaz de lidar satisfatoriamente com a prolixidade da trama (na ausência de melhor termo) elaborada por Andrus. No terceiro ato, não é somente o espectador que se encontra desorientado diante do suposto abuso sexual do qual Rachel teria sido vítima aos doze anos pelo padrasto. Durante boa parte do filme, a única intenção de Marshall e Mark quanto à verdade ou não deste fato parece ser a de nos confundir o máximo possível e neste ponto ambos são bem sucedidos. Entretanto, os dois acabam se tornando vítimas da própria incompetência e são obrigados a negligenciar uma infinidade de fatos que são simplesmente desconsiderados no desfecho do filme. Desse modo, terminada a projeção ficamos sem saber se o advogado fora processado ou não; se Lilly finalmente abandonara o vício e reatara o namoro com o Dr. Simon, tampouco se Harlan rompera com a namorada ou não.
Se o mote da narrativa pretendia se estabelecer sobre a personalidade de Georgia, uma viúva metódica para quem a disciplina é uma regra que deve ser invariavelmente seguida por todos (“Quando tudo tem hora marcada não há espaço para surpresas”), o projeto é bastante infeliz nesse sentido, sobretudo pela construção inverossímil de Jane Fonda acerca da personagem. Se Georgia existisse de fato, uma de suas regras deveria ser a de que ninguém deveria perder tempo assistindo a este deficiente filme. E eu não hesitaria em respeitá-la.


