
A rotina de quem estuda para concurso é árdua, já que a concorrência é cada vez maior. Quem se dispõe a entrar na briga pelas vagas no setor público tem de encarar horas a fio de estudo. E cada um escolhe a melhor maneira para se preparar: em casa, em cursos preparatórios, sozinho ou em grupo. Mas há aqueles que preferem a própria família para compartilhar os estudos e até disputar os mesmos cargos. E garantem: torcem mais pela vitória do outro do que pelo próprio êxito. Mesmo sonho

O casal Anderson Oliveira do Nascimento, de 34 anos, e Geânia Alves Dias, de 29 anos, compartilha o mesmo sonho: querem passar no concurso da Receita Federal para auditor fiscal. E para concretizar esse sonho eles sentam lado a lado, diariamente, durante quatro horas em um curso preparatório.
Segundo Nascimento, eles não pensam em ter filhos. A prioridade é ingressar na Receita, ter estabilidade e uma remuneração de cerca de R$ 10 mil.
Os dois começaram a fazer o curso em abril e devem terminar apenas em fevereiro. Nascimento diz que tenta ter o maior aproveitamento possível na sala de aula, acompanhando tudo o que é dado pelos professores.
Com formação em Ciências Contábeis, ele confessa que não gosta muito de português e inglês - prefere estatística e matemática financeira. Geânia é o oposto. Gosta de língua portuguesa e estrangeira e, na sala de aula, não costuma tirar dúvidas com os professores - prefere recorrer ao marido.
Nascimento confessa que isso o deixa irritado. "Seria mais fácil se ela perguntasse para o professor. A informação é dada para nós dois, e o direito de questionar também. Além disso, eu deixo de prestar atenção para responder dúvidas dela."
Em casa eles estudam cada um no seu canto. Mas, quando as dúvidas aparecem, um recorre ao outro prontamente. Os dois também costumam revisar as matérias juntos.
Nascimento diz que torce para que Geânia passe. “Se ela passar, eu vou continuar estudando pra ser auditor e vai ser ótimo ter a retaguarda dela.”
Ele se diz mais detalhista, enquanto Geânia é mais prática. “Por isso, um complementa o outro. Nós temos a mesma meta e aproveitamos as diferenças para nos ajudar nos estudos”, diz Nascimento.
Para Geânia, o bom é que os dois têm o mesmo objetivo. “O ideal é os dois passarem, ou um dois. O ruim será se nenhum dos dois conseguir”. Mas ela confessa que torce mais para ele. “Se ele passar será uma felicidade como se eu tivesse passado.”
Ionilda de Liz e Silva Pereira, de 38 anos, estuda com o filho, Bruno de Liz e Silva Pereira, de 18 anos, e a nora, Luana Ribeiro Córdova, de 19 anos. Eles decidiram prestar o concurso do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo (TRT-SP), para o cargo de técnico judiciário (nível médio), cujo edital está previsto para sair este ano.
Os estudos em curso preparatório e em casa começaram há cerca de um mês e meio – no total são sete horas por dia de preparação. Ela é formada em Letras, e por isso sabe bem português e interpretação de texto. O filho domina matemática. A nora tem facilidade com história e português.
Ela chama a atenção do filho principalmente para interpretação de texto. “Eles são novos, às vezes não dão atenção para o significado das palavras. Nas questões, achar a palavra-chave ajuda a encontrar a resposta”. O filho explica para Ionilda informática e matemática na frente do computador.
“Estudar junto aproxima a família, a gente discute os assuntos. É melhor confiar na família do que em pessoas estranhas. Quem não quer mais o bem do que a família da gente?”, diz Ionilda. “Se um dos três passar a gente já ganha muito. E se nenhum dos três entrar a gente tenta de novo”, diz.
Bruno diz que a mãe que o incentivou a tentar a carreira pública. Ele acha bom estudar com Ionilda, principalmente porque ela o ajuda na parte de português e Direito. “Ela já conhece várias disciplinas, isso facilita na aprendizagem e eu me sinto mais seguro com ela”. Luana diz que gosta de estar perto deles. “Hoje em dia é difícil achar pessoas que pensam igual, que queiram as mesmas coisas”. E concorda com a sogra: “Se um dos três passar será ótimo”.

A família de Dóris Campanella, de 46 anos, estuda e presta concursos públicos junta há cerca de quatro anos.
Dóris começou a fazer concurso em 1994 – e passou no primeiro que prestou, para a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Mas não foi chamada.
De 2003 para cá, passou a prestar vários concursos e se dedicar mais aos estudos. Passou em seis exames. Escolheu a Prefeitura de São Paulo para trabalhar.
Formada em gestão de RH, ela sempre incentivou os filhos a estudar. Mônica, de 22 anos, e Camilo, de 25 anos, já se formaram em um curso superior e ambos estão fazendo outra universidade. Além disso, eles também buscam oportunidades na carreira pública.
Os filhos passaram a prestar concurso com a mãe a partir de 2004. Em 2006, os três disputaram o cargo de escriturário no Banco do Brasil. Mas só Camilo passou. Ele assumiu o cargo no ano passado. “Quando ele passou fiquei muito feliz, eu torcia por ele, não por mim”, diz Dóris. No mesmo ano, 2006, todos passaram em cargos diferentes, na Prefeitura de Santos, mas não foram chamados.
Nos estudos um ajuda o outro. Camilo auxilia a mãe e a irmã em matemática, as duas ajudam o rapaz em português. Para Dóris, o fato de os filhos ainda terem contato com os estudos a ajudava a “refrescar” a sua memória. Ele diz que passou para os filhos a experiência adquirida após estudar e prestar vários concursos.
Em junho deste ano, ela viajou com a filha para Varginha (MG) para prestar o concurso para técnico bancário na Caixa Econômica Federal. Diz que foi mais para incentivar Mônica, já que ela não queria sair de São Paulo para trabalhar em outro estado.
Neste fim de semana, Mônica e Camilo farão juntos o concurso do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e irão disputar o cargo de técnico administrativo.
Dóris almeja agora prestar concurso para oficial de Justiça. Por cursar Direito, Camilo sonha em ser delegado da Polícia Civil de São Paulo.
Valéria dos Reis, de 42 anos, e Élio Aimberê da Motta, de 44 anos, se conheceram no curso preparatório para concursos há cerca de um ano. Desde então, estão casados e estudam juntos para entrar no serviço público. Ela é contadora e ele é analista de sistemas. Ambos querem ser auditores fiscais, mas ela se concentra no nível estadual e ele, no federal.
Os estudos são compartilhados em casa e no cursinho. Élio passa para Valéria seus conhecimentos em raciocínio lógico, tecnologia da informação, estatística e matemática. Já o forte de Valéria é contabilidade e orienta o marido na área de sua profissão.
Segundo Valéria, o filho de sete anos de Élio incentiva que eles estudem juntos. “Ele fica brincando sozinho para a gente estudar”, diz. “Não tem 'concorrer', é uma questão de cumplicidade e apoio. Um ajuda o outro. E, se um dos dois passar para morar fora de São Paulo, o outro irá atrás”, garante Valéria.

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