O brilho de um jovem jóquei nas estepes da mongólia

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Artigo publicado em 20/7/2008 09:22:00 na seção Discussão.

Artigo sobre O brilho de um jovem jóquei nas estepes da mongólia

menino montou o cavalo para um trote pelo campo, esfriando-o após um longo caminho através das estepes. Ele cantarolava suas canções favoritas de hip-hop mongol, de grupos como Tartar, Flash e Guy 666. Perto dali, na tenda de feltro redonda da família, o pai do garoto ligava um fio de uma antena parabólica à televisão de tela grande. Sua mãe andava ao redor com botas de salto alto. “Quando estou na cidade, sinto falta dos meus cavalos”, diz o garoto, Munkherdene, de 13 anos. “Quando estou no campo, sinto falta dos amigos e dos jogos. Sinto muita falta do meu PlayStation.” Assim é a vida de um menino da cidade transformado em jóquei-mirim na natureza selvagem da Mongólia. Foto: Shiho Fukada/The New York Times Munkherdene alimenta seu cavalo em 9 de julho, antes do festival de Khui Doloon Khudag, na Mongólia. (Foto: Shiho Fukada/The New York Times) A família de Munkherdene, que usa apenas o nome de nascimento, como a maioria das pessoas aqui, é uma das milhares de famílias mongóis da engarrafada capital, Ulan Bator, que está tentando voltar às raízes nômades. O pai do garoto é um bem-sucedido homem de negócios, que importa do Japão eletrônicos, bicicletas e equipamentos de exploração. Mas, como muitos mongóis afluentes de hoje em dia, também cria cavalos. “Neste verão, eu queria enviá-lo a Cingapura para melhorar seu inglês”, diz o pai, Enkhbayar, sobre seu filho. “Mas ele decidiu ficar comigo para ajudar com os cavalos.” A corrida de cavalos está se tornando cada vez mais popular nas mesmas estepes da Ásia Central onde Genghis Khan e suas hordas de guerreiros já galoparam. As maiores corridas do ano ocorreram no final de semana de 12 e 13 de julho, a cerca de 50 quilômetros da capital. Elas fazem parte do festival anual Naadam, um evento mais importante para os mongóis do que as Olimpíadas. Crianças de cinco anos montam em corridas que podem ser perigosas, com centenas de cavalos atravessando a planície aberta de uma só vez, a velocidades próximas dos 80 km/h. No total, mais de 1.800 cavalos correram ao longo do final de semana. À medida que a competição se intensifica, homens de negócios importam cavalos maiores de terras estrangeiras, o dinheiro do prêmio fica mais polpudo e os criadores transportam cavalos em caminhões e trailers em vez de montá-los. Outras tradições também estão mudando. A corrida de cavalos já foi considerada um entre o que os mongóis chamavam de “os três esportes masculinos” (ao lado da luta livre e do arco-e-flecha), mas começaram a aparecer meninas jóqueis. Em seu âmago, entretanto, a corrida de cavalos ainda é aqui uma experiência tão rústica e típica quanto beber leite de jumenta fermentado. Foto: Shiho Fukada/The New York Times Participantes preparam-se para correr no festival nas estepes da Mongólia. (Foto: Shiho Fukada/The New York Times) Munkherdene e Enkhbayar passam seus verões viajando pelo campo, de corrida em corrida, dormindo na sofisticada versão do tradicional ger (tenda portátil utilizada por pastores mongóis) da família, que custa milhares de dólares e arranca olhares de aprovação dos passantes. “A melhor coisa é o ar, e montar um cavalo, quando chove”, diz Munkherdene uma noite, enquanto um duplo arco-íris aparece através das planícies seguindo um temporal no crepúsculo. A família se dirigiu ao campo gramado da pista de corrida de seu apartamento em Ulan Bator na terça-feira anterior à corrida. Para esta ocasião, eles prepararam dois gers, um para dormir e outro para cozinhar. Seus oito cavalos de corrida foram amarrados a postes de madeira, trazidos para cá por meia dúzia de cavaleiros contratados como treinadores. A família tem mais de cem cavalos, que são mantidos em Tov, uma província rural nos arredores da capital, na propriedade onde os avôs de Enkhbayar viviam. Seu pai, que trabalhou na capital para uma editora estatal, o levou lá durante os verões, ensinando-o a montar e cuidar dos animais. E ele agora está fazendo o mesmo por seu filho. “Criadores geralmente não deixam seus filhos e filhas correrem com seus cavalos”, diz Enkhbayar. “Mas deixei meu filho começar a correr há três anos. É importante que ele herde o conhecimento de mim. Ele continuará a treinar cavalos.” Enkhbayar, pai de quatro filhos, observava enquanto Munkherdene, usando uma camisa vermelha do Manchester United, saltava do garanhão e o amarrava a um poste. Aparte as corridas, ele parece qualquer menino de 13 anos de qualquer capital do mundo. No mês passado, ele ficou acordado até tarde para assistir a partidas do torneio de futebol Euro 2008. Seus jogos favoritos de PlayStation são "NBA Street" e "FIFA Street". Sua família é uma entre dezenas que montam gers, no meio da semana, na pista de corrida chamada Khui Doloon Khudag, que significa Centro dos Sete Poços. Algumas das famílias são nômades e viajam centenas de quilômetros com simples tendas de plástico e um ou dois cavalos. Outras trazem dezenas de cavalos e erguem gers elaboradas. (Elas levam muitas horas para serem montadas.) Na quinta-feira, o lugar já havia se tornado o equivalente mongol a uma feira estadual, com restaurantes, estandes de souvenires e postos de comércio. Até o século 20, os cavalos estavam no sangue de todos os mongóis, cujo idioma tem mais de 70 palavras para descrever a coloração do animal. Quando um grande cavalo morre, seu esqueleto é colocado em cima de um marco de pedras em uma montanha, onde os mongóis fazem oferendas. Os cavalos da Mongólia são baixos e atarracados, mas foi exatamente isso que ajudou Genghis Khan a conquistar metade do mundo conhecido. Seus guerreiros podiam montar e desmontar no meio da batalha. Eles também aprenderam a se virar e atirar flechas enquanto se afastavam dos inimigos. Um cavalo de corrida custa de US$ 300 a mais de US$ 80 mil, diz Enkhbayar. Um de seus favoritos é Jiinst, o garanhão que Munkherdene estava montando. O pai de Jiinst era um premiado garanhão, e Enkhbayar comprou Jiinst com objetivo de criá-lo quando ele tinha apenas dois anos de idade. Hoje em dia, alguns homens de negócios compram cavalos maiores de fora do país – Rússia, a Península Árabe, Paquistão e China, diz Enkhbayar. O dinheiro dos prêmios pode ser grande pelos padrões mongóis. Enquanto o primeiro lugar em Naadam recebe apenas um milhão de togrogs, ou US$ 870, os prêmios em competições menores e mais seletas podem ser maiores – um veículo utilitário esportivo, por exemplo. Enkhbayar diz que seus cavalos ganharam mais de dez medalhas, muitas das quais estão pregadas a um tecido vermelho que ele mantém no ger. Nenhuma delas foi conquistada por seu filho, entretanto. Na noite de terça-feira, enquanto mastigava miúdos de ovelha, Enkhbayar pensava se deixaria seu filho correr no final de semana. Teria Munkherdene ficado pesado demais? Iria ele retardar o cavalo? A manhã seguinte trouxe mais preocupações. Uma pesada tempestade varria a planície. Enkhbayar e seus cavaleiros jogaram plásticos por cima dos oito cavalos. “Se chover muito, eu me preocupo”, diz ele. “Os cavalos podem pegar um resfriado. Seus narizes podem escorrer.” A rotina normal de treinamento é galopar os cavalos uma vez por dia para fazê-los se exercitar. Mas a chuva durante sete dos últimos nove dias havia massacrado a programação. Mas no meio da tarde, o céu azul começou a aparecer através das nuvens, e Enkhbayar decidiu que Munkherdene montaria neste final de semana no que provavelmente seria sua última chance de correr em Naadam. “Se ficar entre cinco primeiros, ficarei muito feliz”, disse Munkherdene. “Talvez eu chore.” Seu cavalo terminou em 78º lugar entre mais de 200. Uma colocação respeitável, mas não a que o garoto esperava. “Não estou feliz”, disse ele. “Estou muito infeliz. Queria meu cavalo entre os cinco primeiros.”

Artigo publicado por luciano em 20/7/2008 09:22:00. Os textos aqui publicados são de responsabilidade de seus autores.
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