
Depois de traballhar durante 28 anos no The New York Times, a jornalista americana Judith Miller saiu ressentida do jornal. Apesar de ter ganhado prêmios importantes para o veículo, como o Pulitzer e o Emmy, ela reclama de ter sido tratada de forma injusta em um escândalo que envolveu o alto escalão da Casa Branca, em 2005. Em suas reportagens, Judith afirmava que o Iraque tinha armas de destruição em massa, informação que, mais tarde, verificou-se ser falsa. Judith foi, então, acusada de ceder aos interesses do governo George W. Bush – favorável à guerra – e de ignorar o parecer do diplomata Joseph Wilson que, enviado ao Oriente Médio, negou que Saddam Hussein tivesse armas químicas e biológicas. A posição de Wilson desagradou tanto o governo americano que este vazou à imprensa que sua mulher, Valerie Wilson, era agente da CIA – o vazamento de tal informação é considerado um crime nos Estados Unidos. Quando a informação foi parar nos jornais, Judith, uma das jornalistas que sabiam da verdadeira identidade de Valerie, foi chamada pela Justiça para revelar o responsável pelo vazamento. Como se recusou a dizer o nome da fonte, ficou presa durante 85 dias. Só foi libertada quando seu informante, Lewis Libby, chefe de gabinete do vice-presidente, Dick Cheney, autorizou-a a fazê-lo. Depois de passar por essa experiência, luta pela criação de uma lei nacional que conceda ao jornalista americano o direito de preservar suas fontes - como ocorre aqui no Brasil. Em São Paulo, para falar sobre os limites da liberdade de imprensa no Congresso Brasileiro de Publicidade, Judith concedeu a seguinte entrevista a ÉPOCA. ÉPOCA - Passados três anos, como a senhora vê o escândalo em que foi envolvida? A senhora sente que foi manipulada pelo governo ou ingênua? Judith Miller - Sobre o que você está falando? Não houve escândalo. Fui presa por proteger minha fonte. Todas as fontes deveriam ser protegidas. Acho que a maioria dos jornalistas entendeu a minha decisão. ÉPOCA - O que a senhora tem a dizer sobre o fato de ter publicado informações equivocadas de que o Iraque teria armas biológicas? Judith - Publiquei a informação que recebi na época. Essa era uma informação que o presidente George W. Bush nos deu baseado em uma declaração do serviço de inteligência. E não apenas o nosso serviço secreto, mas o britânico, o francês, o alemão, o russo, o de todos os países que foram à guerra concluíram que havia armas de destruição em massa no Iraque. Infelizmente, a informação estava errada. ÉPOCA - Por que a senhora deixou o New York Times? Judith - Saí porque já estava no jornal há 28 anos. Fui transformada na notícia e achei que era estava na hora de mudar. Tivemos algumas divergências em alguns pontos, que não importam agora, mas continuo respeitando o jornal e o considero uma instituição vital. ÉPOCA - Sendo uma repórter veterana, a senhora acha que foi tratada de forma justa pelo NYT? Judith - Não, não fui. Não pela chefia do jornal. Achei que teria mais apoio. ÉPOCA - O que a senhora está fazendo hoje? Judith - Contribuo para o City Journal e para o Manhattan Institute For Policy Research escrevendo sobre problemas de segurança nacional. Escrevo para diversas publicações, como Los Angeles Times, Wall Street Journal, Reader's Digest... Basicamente para qualquer um que me faça uma oferta que eu ache interessante (risos). Estou em uma ótima fase. E eu vim para cá! ÉPOCA - A senhora se vê como uma heroína por ter ficado na prisão ao não revelar uma fonte? Judith - Não, não me vejo como heroína. Só acho que, como jornalista, fiz o que qualquer jornalista deveria fazer. E tem que fazer. Infelizmente, os jornalistas dos Estados Unidos têm que escolher entre a prisão e a proteção suas fontes. Por isso estou trabalhando para a criação de uma legislação que proteja o jornalista. ÉPOCA - Se sua fonte não tivesse aceitado sair do anonimato, a senhora ainda estaria presa? Judith - Sim. Se minha fonte não tivesse me ligado na prisão e dito "eu quero que você testemunhe, e não é porque George Bush me pediu", eu provavelmente estaria na prisão. ÉPOCA - Como a senhora vê a legislação americana, que não concede ao jornalista a garantia de preservar suas fontes? Judith - É realmente um problema. Nós precisamos da lei. Sob a administração do Bush, e depois do ataques de 11 de setembro, a imprensa se tornou mais agressiva e eles decidiram ir atrás dos jornalistas com mais regularidade e ligá-los às investigações. Eu não sei quantas pessoas foram afetadas por isso, mas, no começo, todos diziam que o meu caso era incomum. Agora, nós sabemos que cerca de 3 mil jornalistas em todo o país já passaram por isso. Três mil! E não era para acontecer. O governo deveria fazer suas investigações sozinho, e não usar os jornalistas como investigadores. Nós não somos parte do governo. ÉPOCA - O governo Bush mentiu para levar os Estados Unidos à guerra? Judith - Minha impressão é de que o governo exagerou nas informações recebidas pelo serviço de inteligência. Algumas pessoas insistiram que havia conexões entre Saddam e o terrorismo e não havia. Eu falei em particular com o vice-presidente, que disse: "nós temos certeza de que há conexão com o terrorismo da Al Qaeda de Osama bin Laden". Isso nunca foi dito pelo serviço de inteligência. O governo disse: "nós sabemos onde estão as armas de destruição em massa". Isso não era verdade. Mas nós não sabíamos (risos). Acho que a maioria do serviço de inteligência estava errada. E eles disseram que Saddam tinha armas químicas e biológicas, e estava desenvolvendo novas armas. ÉPOCA - E é aceitável iniciar uma guerra ao suspeitar que o oponente tem armas biológicas? Judith - Esse é o problema. Você vai esperar até ter certeza de que ele tem? Nós realmente não sabemos o que é admissível pelas leis internacionais. Algumas pessoas disseram "sim, nós acreditamos que eles têm essas armas". Mesmo assim, eram opostas à guerra porque daria aos investigadores mais tempo para encontrá-las. Outros disseram que não era para dar mais tempo porque não sabiam quando essas armas seriam usadas. ÉPOCA - E o que a senhora diz a respeito? Judith - Nunca tomarei uma posição pública a respeito da guerra. ÉPOCA - Que estratégia os EUA devem adotar em relação ao Iraque? Judith - Tenho uma posição particular em relação ao Iraque porque estive lá. Vi a miséria e o sofrimento. Tenho um estreito compromisso com os iraquianos. Ninguém merece viver daquela maneira. Mas nunca permitirei que minhas opiniões pessoais interfiram nas minhas reportagens. Se o serviço de inteligência concluiu que havia armas de destruição em massa, irei publicar isso. Repórteres não iniciam uma guerra ou acabam com ela. Foi o Congresso e o presidente dos Estados Unidos que levaram o país à guerra. ÉPOCA - Que avaliação a senhora faz da atual cobertura da campanha presidencial na imprensa americana? Judith - É uma competição incomum, uma cobertura incomum. Como observadora, acho que está sendo muito boa, um aprendizado surpreendente. ÉPOCA - Por que surpreendente? Judith - Se você tivesse a minha idade, e tivesse crescido onde cresci, na Flórida, teria visto negros sendo segregados em banheiros, em hotéis. Eles não podiam beber no mesmo bebedouro que eu. E eu vejo, depois de toda a minha vivência, um homem negro e uma mulher como candidatos à presidência. Esse é um tempo maravilhoso para os Estados Unidos. Nós estamos mudando nossa cultura e podemos continuar a mudá-la. Acho que Hillary foi uma vítima importante da cobertura sexista, mas, ainda assim, acho que é um momento maravilhoso para a América. ÉPOCA - E qual é seu candidato? Judith - Não tenho um. Eu tinha um. Ela chamava Hillary (risos). Estou esperando para ver quem é Obama e em quê ele acredita, e qual é o poder de John McCain. Nós saberemos mais sobre eles no final de tudo isso. Por enquanto, é muito excitante assistir. Obama é tão jovem e McCain é tão velho! (risos). Isso acontece na democracia.

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